Carnaval

Será que a moça bonita no fim da rua sofre por amor? Será que ela já deixou que alguém a conquistasse e a destruísse? Será que por trás desse riso frouxo, dessa roupa de carnaval, desse glitter no rosto, existe um coração em pedaços? Será que ela caminha em direção ao bloco de carnaval ou sem direção alguma? Será que ri desse jeito quando está sozinha no seu quarto ou chora abraçada no travesseiro ouvindo uma música triste? Será que ela sabe o que eu passo aqui e, por isso, não desvia os olhos de mim? Será que eu esqueci de me fantasiar e vim nua pra rua? Dizem que a vida só começa depois do carnaval, será que as nossas vidas podem acabar aqui?

Tanto

Eu sinto a pele do seu pescoço nas minhas unhas, morna e macia. Ouço o tom da sua risada, vejo seus olhos fecharem levemente e admiro a curvatura dos seus cílios atrás dos óculos que escolhemos juntos. Observo tudo isso e sinto o peito quente. Meu corpo ferve na sua presença, meus dedos insistem em querer tocar cada centímetro do seu corpo como uma forma de cumprimento. Minha alma reconhece a sua e eu tenho vontade de entrar em você. Nesse abraço quente e largo que por anos foi meu – e de algumas outras. Sinto meu corpo estremecer com essa observação e odeio a sensação desse frio que contorce cada músculo do meu corpo. Isso acontece algumas vezes durante o dia. Uns dias atrás eu disse o quanto era torturante o que eu fazia comigo mas, mais que isso, só o que você faz. Só a forma como você me atrai e me expulsa, só a forma como você brinca com o pouco que restou de mim.E se diverte com isso. Você sempre quis o melhor dos dois mundos e tudo o que eu queria era o melhor de você! Eu sinto a textura do seu beijo, o jeito como seus lábios se encaixam perfeitamente nos meus e, por um segundo, me pergunto se você consegue sentir a mesma vibração, se com alguma delas foi bom desse jeito? Eu sinto seu cabelo entrelaçando nos meus dedos, sinto sua respiração, seus batimentos, o suor escorrer pela sua testa e me pergunto como você conseguiu fingir por tanto tempo? Eu sinto que ainda te amo e me pergunto se a nossa história realmente foi bonita ou se eu inventei? Eu sinto muito, mas queria não sentir.

Amor metropolitano

Seu corpo largo e quente encaixava perfeitamente no meu, éramos feito na medida certa. Ficávamos sempre perto, de almas coladas, auras entrelaçadas, energias compartilhadas. Nossa essência, nosso suor e nossos dedos ficavam tão próximos que mal sabíamos onde começava seu corpo e onde acabava o meu. Cada canto do meu corpo possuía um aviso de pertencimento para um toque seu e cada célula do meu corpo reconhecia as suas. Éramos aqueles nós difíceis de desatar, aqueles trânsitos que duram horas, aquelas chuvas de Janeiro, aquele sono de domingo depois do almoço. Mas o que sobrou foi o nosso olhar e aquelas palavras que nasceram para pairar a meio fio. Todas não ditas. E eu queria tanto poder dizê-las agora! Achei que o tempo fosse suficiente para levar suas coisas embora, mas restou um amor, um amargo e uma necessidade de esconder o meu amor caótico. Naquele sábado, nossa história de amor durou um trago. E do 2º andar, eu te vi levantar o corpo do chão, pegar sua bolsa e ir.

Casa

Na última vez em que escrevi um texto, me perguntaram se eu só sei falar de amor e eu respondi que costumo escrever do que não consigo entender. Mas hoje, eu quis escrever sobre algo que entendo e sou grata. Em pouco tempo sua presença ganhou cor, perfume e gosto. Eu te vejo em livros, te ouço em músicas, te sinto em lugares. Eu que sempre quis um lugar pra ir quando quisesse fugir, fui achar morada no seu abraço quente. Era um dia quente de início de verão em São Paulo, eu  tive que dizer o quanto eu estava surpresa por você gostar das mesmas bandas que eu gosto. Essa foi a primeira semelhança. No terceiro andar daquele prédio, quando te vi pela primeira vez, agradeci em silêncio por achar alguém tão conturbado quanto eu. Eu te disse que era louca e você sorriu. Nossos caminhos, nossas inseguranças, nossos dilemas, a energia, o sexto sentido, a constante tristeza de artista, todas as bagagens e, ainda assim, quando penso no seu nome, soletro calma. C-alma. Na mesma cidade, na mesma avenida, vivendo vidas tão parecidas. Eu te perguntei se foi sorte te encontrar no caos e você disse que não acreditava em sorte, mas que com certeza foi alguma coisa. Isso não é sobre amor. É sobre empatia. Eu não tive pressa de te conhecer, nem vi você chegar, nem contei os dias, não vi as horas, não precisei pedir e, quando me dei conta, você estava aqui. Ainda bem! Pode entrar, sentar, fica à vontade, a casa é sua.