TREM

Ela veste medo e pressa. Se arma de força – ou tenta. Veio com defeito, possui um útero. Acorda às quatro da manhã, mas não reclama. Está acostumada. Oito anos dessa mesma rotina. Quando sai de casa, o sol ainda nem apareceu no horizonte, vai aparecer lá pela quarta ou quinta estação do trajeto que ela está prestes a percorrer. Cheio e lento. Onze estações até o destino final. Uma hora na mesma posição. Empurra aqui, empurra ali, coloca a mochila na frente pra não ser roubada, coloca o fone de ouvido, procura o lado que tem mais mulheres – com medo de ser abusada -, embora ela tenha aprendido que sororidade é uma mentira romântica no universo do trem. Ali seu corpo deixa de ser só seu e ninguém vê. Roupa justa demais é perigoso, vestido é perigoso, shorts é perigoso, saia é perigoso, decote é perigoso, mostrar os braços é perigoso, passar maquiagem é perigoso, esse horário pra você é perigoso, afinal, ser mulher é um ato de coragem. Todas tem medo. Todos fingem que não veem. Empurra, aperta, segura o peso de cinco pessoas apoiadas em seu corpo minúsculo. Pergunta pra Deus todas as manhãs quando vai acabar. Faltam quantas estações? Nove. A vida. Sente o peso da sua mochila e da mulher à sua esquerda. Dói a costela e a coluna. Cinco horas da manhã e já sente nas pernas o cansaço de um dia inteiro de trabalho. Um homem pressiona o corpo contra o dela. Ela se afasta. O mesmo apoia a mão na mão dela. Ela tenta trocar de lugar. A criança chora, o senhor ronca alto, o vendedor de amendoim passa no meio da multidão sem se importar com a falta de espaço, o trem para. O coração parou há três minutos. Algo na linha. Vinte minutos de espera. As pessoas reclamam do dia, do horário, da espera, do barulho, do calor, do aperto, do cheiro ruim, da política, da mãe do maquinista. Ela fecha os olhos e pede pra si mesma: calma. Um, dois, três, onze estações até o destino final. Cinco e meia da manhã. Seis horas. O trem esvazia, mil e novecentas pessoas se amontoam na escada rolante. E ela finalmente sente o peso do próprio corpo, sente vontade de voltar pra casa, mas o dia mal começou, ainda faltam duas baldeações e um ônibus antes de fazer todo o caminho de volta pra casa. Seu tempo é contado através de transportes públicos e dor. Mais uma Maria, mas podia ser Heloísa, Paula, Suzane, Lúcia, Cristina. Mulheres guerreiras. A menor de suas batalhas é o trem.

Texto escrito dia 07/04/2018 para projeto artístico em parceria.

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Lua de sangue

O vento duro e frio seca o suor do meu rosto. Os músculos da minha perna ardem devido à caminhada. Eu pensava que já havia visto de tudo, que já conhecia minha cidade como a palma da minha mão, mas, durante o caminho, percebia que não. Quanto mais forçava meu corpo para dentro da trilha, mais era recompensada por uma paisagem que eu desconhecia. A cada dois quilômetros todo o ambiente ao redor se alterava. No começo, uma trilha larga, árvores grandes, mata densa, resquícios de uma Mata Atlântica e o som da cidade gritava no fundo; aos poucos a mata ia ficando cada vez mais rala e o barulho da rodovia era substituído pelo som dos pássaros. De repente, a trilha se afinou, o terreno era acidentado, um pouco íngreme e, então, abria-se caminho pra uma terra vermelha e plana, imensa, sem vegetação e nem parecia mais que um dia ali perto existiu alguma cidade. Alguns vários passos á frente, outra trilha, resquícios de um Cerrado, com árvores de pequeno porte, tortas, aparentemente mortas – mas, ainda assim, cheias de vida. De repente uma paisagem verde e, ao fundo, um mar de morros altos – é pra lá que eu estava indo -, mas antes, a trilha me levava a uma descida em que só cabia uma pessoa, as pedras eram escorregadias, as folhas das árvores se uniam acima da cabeça, tampando a luz do sol, ouvia-se os pássaros cada vez mais próximos, mas não dava pra vê-los. Em seguida, uma subida. E ela era impossível quando se olhava do pé. Íngreme. Cada passo em direção ao topo do morro, o ar parecia faltar do pulmão. Estava difícil respirar. Parei cinco vezes no caminho e, em cada uma delas, contemplei a paisagem e pedi – pra qualquer um que pudesse me ouvir – que me permitissem chegar onde eu queria. Aguenta firme, eu dizia pra mim mesma. Vai valer a pena. A vista já era linda dali do alto, já tinha valido a pena a caminhada, mas desistir não era uma opção. Cada parada, um agradecimento, pra recuperar o fôlego. Enfim, do alto do morro via a cidade ao redor e me via. Como se meu reflexo estivesse num rio turvo e em movimento. É isso que sou. De todas as centenas de milhares versões de mim, essa certamente é a que eu mais gosto, penso mas não reproduzo em voz alta, com medo de quebrar a magia. Respiro fundo, sinto o ar frio sendo inspirado, preenchendo-me em forma de luz, amarela, pulsante, como se os raios de sol me invadissem em forma de ar. Enxergo, sinto, expiro. O coração desacelera. Tudo se fez claro. Um ciclo se encerrava ali e eu podia tocá-lo, tão palpável. O Universo se abria como uma flor e a borboleta cruzava o meu antigo eu, como um sinal de paz.  Enfim, aqui jazia e agora sou.

Ubuntu

Algo importante se fez presente diante da verdade do que meus olhos viam, parece precipitado dizer que alguma coisa aqui dentro mudou pra sempre, mas é certo que eu não sou mais a mesma, tampouco voltarei a ser. Eu sempre soube das coisas que presenciei, já havia passado por vielas semelhantes e visto barracos com os mesmo tamanho, mas ali meus olhos paralisaram. “Não fala seu nome em voz alta, você está louco?”, uma mulher, com toda a força dos seus olhos escuros dizia em um sussurro que abafava um grito, para seu filho de nove anos. Ela me lembrava alguém que eu havia conhecido em algum lugar, na altivez e na presença forte. Quando eu cheguei, me olhou desconfiada, como uma pantera analisando o caminho e, embora ainda mantenha certa resistência no olhar, agora sorria pra mim e eu me dava por satisfeita. “Eu construí isso aqui sozinha. Não tinha nada, mas tinha meus meninos pra criar. Saí por aí perguntando onde tinha um terreno livre, apontaram aqui e, aos pouquinhos eu vim. Não é o melhor lugar do mundo, eu sei disso, mas é meu.” Ela estava em uma área ocupada, seu marido é ambulante, eles têm dois filhos e juntos vivem com menos de 300 reais por mês. O garoto passa correndo por mim e com um balde pega um pouco da água turva que passa pelo córrego abaixo de nós. Ele leva o balde pro barraco. “Tem três cômodos, contando com o banheiro.”, ela diz. “Meus filhos não trabalham graças a Deus! Consegui vaga pra eles na escola. Eu não queria estar aqui. Quero que eles sejam diferentes.” O garoto aparece de novo, dá um sorriso tímido pra mim e abraça a mãe. Faço algumas perguntas, explico algumas coisas, aperto a mão dela e me despeço com sorrisos. Volto pra casa e, de repente, não me encaixo mais na minha vida. Entro no meu quarto e choro com o tamanho do mundo. Minha realidade, de repente, parece exagerada. Me pergunto se há algo que eu possa fazer. Privilégio ecoa na minha cabeça. Ubuntu ecoa no meu coração.

Oração

Eu senti o choque de dois corpos colidindo, senti a explosão e vi o Universo nascer. Eu não sabia o que estava sendo criado ali, mas sabia que seria grande, intenso. Foi como se tudo o que está em movimento de repente parasse para assistir os seus quadris. As ondas, os relógios, o canto dos pássaros, os trens, o movimento do ar, tudo o que era natural e o que era invenção humana simplesmente parou e observava agora o fluxo dos nossos corpos. Era palpável a energia que passava de mim para você, naquele vai e vem ritmado. O gosto da pele no meio das suas pernas pairava na ponta da língua, o cheiro doce invadia o ar, o som do seu gemido era a trilha sonora, meu corpo teso, duro, são, deslizava sob o seu. Cada gota de suor, cada respiração, tudo estava sendo televisionado. Um Universo inteiro nascia de nós dois. Não era físico, nem químico, nem santo. Deus que me perdoe, mas eu só entendi o que eu havia lido na Bíblia a vida inteira quando suas coxas prenderam meu rosto. O fruto proibido, o amor devoto, a criação do paraíso. Esse papo todo nunca foi sobre o mundo, céu e inferno, origem do universo. É sobre amor. É sobre você. É sobre o desenho do seu corpo, o toque da sua pele, o gosto da sua intimidade, é sobre o seu ritmo e o porquê do meu corpo se atrair tanto pelo seu. Eu vi Deus de perto e ele não era qualquer mulher. Era você. Criando o Universo em mim.