Ubuntu

Algo importante se fez presente diante da verdade do que meus olhos viam, parece precipitado dizer que alguma coisa aqui dentro mudou pra sempre, mas é certo que eu não sou mais a mesma, tampouco voltarei a ser. Eu sempre soube das coisas que presenciei, já havia passado por vielas semelhantes e visto barracos com os mesmo tamanho, mas ali meus olhos paralisaram. “Não fala seu nome em voz alta, você está louco?”, uma mulher, com toda a força dos seus olhos escuros dizia em um sussurro que abafava um grito, para seu filho de nove anos. Ela me lembrava alguém que eu havia conhecido em algum lugar, na altivez e na presença forte. Quando eu cheguei, me olhou desconfiada, como uma pantera analisando o caminho e, embora ainda mantenha certa resistência no olhar, agora sorria pra mim e eu me dava por satisfeita. “Eu construí isso aqui sozinha. Não tinha nada, mas tinha meus meninos pra criar. Saí por aí perguntando onde tinha um terreno livre, apontaram aqui e, aos pouquinhos eu vim. Não é o melhor lugar do mundo, eu sei disso, mas é meu.” Ela estava em uma área ocupada, seu marido é ambulante, eles têm dois filhos e juntos vivem com menos de 300 reais por mês. O garoto passa correndo por mim e com um balde pega um pouco da água turva que passa pelo córrego abaixo de nós. Ele leva o balde pro barraco. “Tem três cômodos, contando com o banheiro.”, ela diz. “Meus filhos não trabalham graças a Deus! Consegui vaga pra eles na escola. Eu não queria estar aqui. Quero que eles sejam diferentes.” O garoto aparece de novo, dá um sorriso tímido pra mim e abraça a mãe. Faço algumas perguntas, explico algumas coisas, aperto a mão dela e me despeço com sorrisos. Volto pra casa e, de repente, não me encaixo mais na minha vida. Entro no meu quarto e choro com o tamanho do mundo. Minha realidade, de repente, parece exagerada. Me pergunto se há algo que eu possa fazer. Privilégio ecoa na minha cabeça. Ubuntu ecoa no meu coração.

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Oração

Eu senti o choque de dois corpos colidindo, senti a explosão e vi o Universo nascer. Eu não sabia o que estava sendo criado ali, mas sabia que seria grande, intenso. Foi como se tudo o que está em movimento de repente parasse para assistir os seus quadris. As ondas, os relógios, o canto dos pássaros, os trens, o movimento do ar, tudo o que era natural e o que era invenção humana simplesmente parou e observava agora o fluxo dos nossos corpos. Era palpável a energia que passava de mim para você, naquele vai e vem ritmado. O gosto da pele no meio das suas pernas pairava na ponta da língua, o cheiro doce invadia o ar, o som do seu gemido era a trilha sonora, meu corpo teso, duro, são, deslizava sob o seu. Cada gota de suor, cada respiração, tudo estava sendo televisionado. Um Universo inteiro nascia de nós dois. Não era físico, nem químico, nem santo. Deus que me perdoe, mas eu só entendi o que eu havia lido na Bíblia a vida inteira quando suas coxas prenderam meu rosto. O fruto proibido, o amor devoto, a criação do paraíso. Esse papo todo nunca foi sobre o mundo, céu e inferno, origem do universo. É sobre amor. É sobre você. É sobre o desenho do seu corpo, o toque da sua pele, o gosto da sua intimidade, é sobre o seu ritmo e o porquê do meu corpo se atrair tanto pelo seu. Eu vi Deus de perto e ele não era qualquer mulher. Era você. Criando o Universo em mim.

Ponderar. v.t.i

Eu aprendi a não ter pressa. Uma hora ou outra as coisas acontecem, do jeitinho que tem que ser. Aprendi a controlar esse impulso de sair atropelando tudo e todos, passando por cima de cada respiração e ato que viessem contra o que eu queria. Uns dizem que eu aprendi a ponderar. Eu nem conhecia a origem dessa palavra antes de descobrir o que era calma, então eu digo que aprendi a transformar o meu caos em cais. E basta. Me perguntam por quê eu preciso ver poesia em cada ato e transformar tudo em profundidade, e eu digo: eu só mergulho se for fundo, amor. E quando não é, eu faço ser, eu nado no raso imaginando a imensidão do mar. Entende? Meu espírito cria. E eu sigo. A vida é dura demais pra gente viver sem fantasia e, entre todas as drogas do mundo, eu preferi o sonho pra me tirar do que é real. Quando eu penso em tudo o que eu passei, eu percebo que até essa escolha foi questão de aprendizado, talvez eu realmente pondere as coisas agora… Fato é que não tenho pressa. Quero terminar tudo o que eu comecei, quero viver até o fim cada experiência que me foi dada e ver quem eu vou me tornar. Eu estou amando o produto das minhas ações até aqui, foi com custo que passei por cada fase e foi com custo que sobrevivi. Finalmente aprendi o que é amor e, quando penso nisso, fico feliz de saber que, dessa vez, sinto-o inteiro por mim.

Qual o quê dos quais

Eu vi no riso daquela criança um pedaço seu. Não porque você tenha feito parte disso – você não a viu chorar, não viu os primeiros passos, não segurou a mão quando caiu, não secou as lágrimas do primeiro machucado -, mas porque você fez parte disso quando ainda era sonho. Essa manhã estávamos deitados na cama, ele resistia a voltar a dormir e então me olhou com seu brilho no olhar. Eu me assustei. Faz anos que não o vejo, de repente encontrei o seu brilho nos olhos do maior amor da minha vida. Quis chorar, mas sorri. Meu corpo inteiro se contorceu e apequenou. Ele me abraçou o rosto, sorriu e fechou os olhos. Logo em seguida dormiu, e eu continuei ali, parada, pequena, lembrando do brilho dos olhos dele, que eram tão seus. Esse texto não tem fim, porque mal tem começo. É como essa semana, que começa hoje e acaba na quarta feira. Estranho. Como te sentir aqui sem nem saber de você. Parece que falta, ou que sobra. Só não sei o quê.